Publicado em 11 Apr 2008 às 0:45
na categoria Importúnos
ah… que calor!
tá calor mesmo!
se eu fosse rica, compraría uma piscina e dentro colocaría gelo
- daqueles redondinhos -
aí eu ia me jogar dentro dela e ficar com frio
- bom, ao menos não ia sofrer com o calor -
equilibrar sentidos
é difícil isso.
corre-se um certo risco.
por exemplo:
quem come muito, fica gordo
quem não come nada, enfraquece
quem bebe muito, cai
quem não bebe, fica com sede
quem deita durante muito tempo, fica com dor nas costas
quem não deita, tem que sentar
quem fala muito, se cansa
quem não fala muito, não sabe o que dizer quando tem que falar
quem escreve muito, fica com l.e.r.
quem não escreve… bem, quem não escreve…
(…)
quem não escreve não sente calor.
ah… que calor!
Publicado em 29 Mar 2008 às 23:24
na categoria Cartas
Sou do céu.
Do fundo do mar, da superfície, da ponta do lápis, da ponta do dedo da bailarina, da flor, das calcinhas, dos lençóis, dos sabonetes, dos xampus. Da capa do livro de poesia, da roupa do palhaço, da bolsa da madame, da canela da criança, do olho do bandido, da olheira. Da carne crua, do mofo, das veias, do vinho, da mancha, da parreira, da língua do chow-chow. Da fita de cetim, da saia da cigana, do chapéu da bruxa, do palito de picolé, do pelo do pincel, da chama do fogo, da água-viva, do morto.
Sou do olho de quem olha fixamente para a luz e depois fita o branco da parede.
Sou da mente de quem fecha os olhos e vislumbra o infinito.
Sou o demônio. A cólera. A guerra.
Sou o confete. A chuva. Sou serpentina.
Um piscar de olhos.
No mais, sou doce.
A cor roxa.
jan2008
Carta pra Mabel
Publicado em 17 Mar 2008 às 22:47
na categoria Pó
Quando o sol se põe, é hora de arrumar os cabelos. Então começa uma nova história que não é de amor, nem de sexo, nem de guerra, nem de mentira, nem de verdade. Quando o sol se põe, a luz que ofusca ameniza os olhares alheios. Posso então abrir portas, livros, gavetas, braços e torneiras. E vejo a rua aqui de dentro, como se soubesse cada poeira que corre por ali. Cada ruído, cada passo, cada palavra. Quando o sol se põe, é hora de te ver. Então visto a melhor roupa, calço os melhores sapatos, abro o melhor vinho e caminho até a janela. Me escondo. Me escondo novamente. Ali está você, na minha mira, no meu caminho, na minha janela, no meu reflexo. Impregnado como cheiro de alvejante na mão. Suada. Quando o sol se põe, minhas mãos suam. Meu peito se fecha e na cama desabo. Me escondo de mim, de você, do pó. Me escuto no silêncio da porta que bate. A poeira do criado mudo gruda conforme o móvel se expõe ao calor. Descalço os melhores sapatos. Tiro a melhor roupa. O vinho acabou. Quando o sol se põe, é hora de desarrumar os cabelos. Aquela velha história de amor, sexo, guerra, mentira e verdades. Quando o sol se põe acordo do sono não profundo. Procuro sua mão, se travesseiro, seu gosto. Acho o céu. Deslumbro. Rolo para o outro lado da cama, respiro fundo, engulo a saliva seca, levanto. É madrugada. Noite de céu limpo e roupas sujas. Cor de uva impregnada. Caminho até a janela. Me escondo.Tomo um gole de chá de camomila. Me escondo novamente. Ali está você, na minha mira, no meu reflexo. Escondendo-se. Quando o sol se põe, é hora de tomar chá e dormir.