Author Archives: Aline

e o chão fica

o barulho do vidro estilhaçado
me incomoda o latido do cachorro
me incomoda o falar daquele homem
som de roda, asfalto, motor
nego as minhas origens
não ouço mais quem sou
(pode não parecer
mas quando ela
espirra
o chão fica mais
leve)
na rua o ruído parece menor.
fico cega tentando não escutar
foco o ouvido em outro lugar
(e o chão fica)

no quarto escuro

no quarto escuro
vejo minha pálpebras
o céu e a noite
mais claros que o quarto
minhas pálpebras brilham
com a luz do sol

Eu não escrevo poesia

Eu não escrevo poesia
Todo dia
Escrevo
Olhares, sussurros e cafunés.
Eu não vejo você
Todo dia
Leio
Poesia, sussurros e cafunés.
Eu não falo muito
Todo dia
Vejo
Olhares, poesia e cafunés.
Eu não toco em você
Todo dia
Sinto
Olhares, sussurros e poesia.
Eu não escrevo poesia
Todo dia.

ah… que calor!

ah… que calor!
tá calor mesmo!
se eu fosse rica, compraría uma piscina e dentro colocaría gelo
- daqueles redondinhos -
aí eu ia me jogar dentro dela e ficar com frio
- bom, ao menos não ia sofrer com o calor -
equilibrar sentidos
é difícil isso.
corre-se um certo risco.
por exemplo:
quem come muito, fica gordo
quem não come nada, enfraquece
quem bebe muito, [...]

Problema de…

 
Problema de espaço
Problema de dor
Problema de água
Problema de sol
Problema de lixo
Problema de luxo
Problema de carro
Problema de estudo
Problema de mosquito
Problema de alzheimer
Problema de vírus
Problema de pó
Problema de tempo
Problema de visão
Problema de cheiro
Problema de ocupação
Problema de feriado
Problema de finados
Problema de fiado
Problema de tamanho
Problema de equilíbrio
Problema de matemática
Problema de máquina
Problema de concreto
Problema de poema
Problema de imagem
Problema de passagem
Problema [...]

Sou do céu…

Sou do céu.
Do fundo do mar, da superfície, da ponta do lápis, da ponta do dedo da bailarina, da flor, das calcinhas, dos lençóis, dos sabonetes, dos xampus. Da capa do livro de poesia, da roupa do palhaço, da bolsa da madame, da canela da criança, do olho do bandido, da olheira. Da carne crua, [...]

Quando o sol se põe…

Quando o sol se põe, é hora de arrumar os cabelos. Então começa uma nova história que não é de amor, nem de sexo, nem de guerra, nem de mentira, nem de verdade. Quando o sol se põe, a luz que ofusca ameniza os olhares alheios. Posso então abrir portas, livros, gavetas, braços e torneiras. [...]