Quando o sol se põe, é hora de arrumar os cabelos. Então começa uma nova história que não é de amor, nem de sexo, nem de guerra, nem de mentira, nem de verdade. Quando o sol se põe, a luz que ofusca ameniza os olhares alheios. Posso então abrir portas, livros, gavetas, braços e torneiras. E vejo a rua aqui de dentro, como se soubesse cada poeira que corre por ali. Cada ruído, cada passo, cada palavra. Quando o sol se põe, é hora de te ver. Então visto a melhor roupa, calço os melhores sapatos, abro o melhor vinho e caminho até a janela. Me escondo. Me escondo novamente. Ali está você, na minha mira, no meu caminho, na minha janela, no meu reflexo. Impregnado como cheiro de alvejante na mão. Suada. Quando o sol se põe, minhas mãos suam. Meu peito se fecha e na cama desabo. Me escondo de mim, de você, do pó. Me escuto no silêncio da porta que bate. A poeira do criado mudo gruda conforme o móvel se expõe ao calor. Descalço os melhores sapatos. Tiro a melhor roupa. O vinho acabou. Quando o sol se põe, é hora de desarrumar os cabelos. Aquela velha história de amor, sexo, guerra, mentira e verdades. Quando o sol se põe acordo do sono não profundo. Procuro sua mão, se travesseiro, seu gosto. Acho o céu. Deslumbro. Rolo para o outro lado da cama, respiro fundo, engulo a saliva seca, levanto. É madrugada. Noite de céu limpo e roupas sujas. Cor de uva impregnada. Caminho até a janela. Me escondo.Tomo um gole de chá de camomila. Me escondo novamente. Ali está você, na minha mira, no meu reflexo. Escondendo-se. Quando o sol se põe, é hora de tomar chá e dormir.
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2 Comments
Olá!
Lindos posts! Adorei teus textos, parabéns!
Fomos ontem no sopão e vcs não estavam lá… snif.
beijos
ah, e bem-vinda ao timão!!
